As árvores e a ocupação do espaço público

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As árvores e a ocupação do espaço público

 Jardim de Sofia

Publicado em 26/12/2012 | JORGE BRAND

Discutir a política de arborização das cidades requer uma predisposição ao diálogo. Não podemos admitir um monólogo destrutivo e tecnocrático do poder público, que, em geral, não discute tal política com as comunidades. Tudo deve ser discutido e, no melhor dos cenários, a responsabilidade pelo plantio e cuidado com as plantas deve ficar a cargo dos próprios cidadãos.

“O melhor governo é o que menos governa”, já afirmou Thoreau (1817-1862), contradizendo todos os ânimos exaltados de nossos gestores, que parecem não querer admitir a possibilidade de os cidadãos tomarem conta de fatores que envolvem diretamente suas próprias vidas. Destruir praças para o trânsito dos carros, criar novos binários em ruas ainda pacatas, dificultar a vida dos pedestres e ciclistas, tudo isso parece ser encarado apenas como o simples ônus da vida nas cidades. Mas, na verdade, não é. Isso tudo é fruto de escolhas políticas execráveis que não consideram as pessoas, mas apenas as máquinas e o capital. O que se cria com tudo isso? Cidades horríveis onde ninguém deseja estar, onde sair de casa é um tormento. Onde atravessar uma rua qualquer é risco de vida.
Uma cidade feita para as pessoas, que considere a escala humana, a velocidade dos pés e o horizonte do olhar, é bastante diferente de uma cidade construída para os carros, ou, ainda, de uma cidade que se submete aos mandos e desmandos dos empreendimentos imobiliários. Curitiba parece não saber exatamente em qual categoria quer se encaixar.
É cidade rica em contradições. Ao mesmo tempo em que a prefeitura corta árvores de vastos trechos urbanos, sem consulta prévia aos moradores, cidadãos preocupados se lançam em práticas políticas de ação direta. Engenheiros dedicam-se ao plantio de mudas perto das linhas de trem. Grupos plantam árvores nativas nas margens do Rio Belém, recriando espaços de convivência e ressignificando a “coisa pública”. Outros, com claro intuito preservacionista, se acorrentam em árvores que estão sob a mira dos gestores. Tudo isso é muito bom. A cidade é espaço de embate e confronto e devemos superar a hegemonia de um só pensamento ou prática, cultivando nossos jardins e a arte da política, ou seja, da vida em comunidade.
No Jardim Ambiental, junto à quadra de esportes próxima à Rua Itupava, havia uma árvore linda, que cresceu contorcida, bela em sua disformidade. Oferecia um caminho para o alto, um banco mais elevado em seu tronco e um espaço de brincadeiras, além, é claro, de vasta sombra para quem quisesse. Da noite para o dia desapareceu. Estava saudável, forte e viçosa. Não apresentava risco algum. Por outro lado, na Avenida Silva Jardim, em tempos recentes, um vendaval derrubou uma árvore que causou a morte de um motorista. Quem toma conta de nossas árvores? Quem fiscaliza sua saúde? Quem determina quem vive e quem morre?
Uma política de arborização deve ser construída com a participação efetiva dos moradores. As crianças e as escolas podem ter um papel central nisso tudo. Mudas de árvores podem ser distribuídas regularmente nas feiras de rua, junto com as instruções de plantio. Todo o lixo orgânico doméstico pode facilmente virar composto em nossas próprias casas e tornar-se o adubo das praças e passeios, aliviando, de maneira significativa, o fardo dos aterros. No fim das contas, as árvores representam o ciclo da vida, das águas, do ar e de tudo aquilo que ignoramos em nossa pressa e insensatez.
Jorge Brand, filósofo, é coordenador-geral da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu (CicloIguaçu).
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