Arquivo para harmonia

Sobre o Real e o Irreal

Posted in Uncategorized with tags , , , , , , , , on abril 12, 2009 by goura

(texto apresentado originalmente no Jornal da AYPAR, verão 2006)

 

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Uma das características essenciais do mundo material é sua efemeridade, sua transitoriedade. Em sânscrito chamamos o mundo de jagat. Swami Dayananda apresenta uma interpretação interessante do termo. Diz ele que a palavra tem um sentido etimológico composto de duas raízes Ö ja – nascer, e ­Ö gam – ir. O universo, portanto, é tudo aquilo que nasce, que aparece, e depois segue, transmuta, se transfigura, vai embora. Em grego o termo physis traz um sentido semelhante. Na interpretação filosófica da palavra, feita por Martin Heidegger, physis é o desvelar daquilo que estava escondido, o aparecimento do oculto, o desabrochar da flor. No estado seminal do ser já encontramos latentes todos os demais estados de seus desenvolvimentos. Em ambas análises podemos sublinhar a idéia de movimento e de conseqüentes transformações que tem ai sua origem. Um outro exemplo clássico é a afirmação aparentemente óbvia, mas potencialmente perturbadora, de Heráclito. Diz ela: no mesmo rio, entramos e não entramos; somos e não somos. Ou: no mesmo rio não entramos duas vezes.

            Existe, no entanto, algo insistentemente inquietante, que reside em nossa mente e aparentemente se opõe a todas as mudanças do mundo. Na Gita Krishna enfatiza muitas vezes as diferentes percepções e argumentos que estabelecem a oposição existente entre o mundo material (e o corpo material) e este princípio que chamamos aqui de inquietante, mas que é nomeado por Krishna como atma. O atma é a essência vital, a consciência que experimenta o mundo dos objetos, ou, como diz Schopenhauer, é ´aquele que conhece tudo mas não é conhecido por ninguém´. Esta oposição aparece mais claramente no seguinte verso:

Asato ma sad gamaya

Tamaso ma jyotir gamaya

Mrtyor ma amrtam gamaya

O asat é a negação daquilo que é real, sat; a escuridão é a oposição à força luminosa, jyoti. E a morte é a imposição de um limite àquilo que é, em essência, ilimitado e imortal. (Observar a relação lingüística entre imortal e amrtam.) A morte é a conseqüência do nascimento. É o destino final de todas as transformações da matéria. Pode parecer, à primeira vista, que um tal tipo de raciocínio seja uma mera exaltação pessimista. Mas não. Reconhecer o mundo em que vivemos, nosso habitat, significa estar disposto a interpretar e construir o sentido das informações que chegam até nós. Para isto exige-se uma qualificação do indivíduo, um treinamento, uma disciplina de si, um cuidado de si ( ver Foucault na Hermenêutica do Sujeito). A filosofia e a preocupação efetiva sobre o ser sempre foram, em todas as culturas, a ocupação de poucos. Na maior parte dos homens a vida encontra uma proporção bastante desigual entre os cuidados com a subsistência e as indagações metafísicas, usando este termo com o máximo de cuidado possível. Geralmente a balança pende para o primeiro lado. Nos puranas, antigos textos da literatura védica, encontramos afirmações que dizem que um ser humano verdadeiro, um homem, um antropos, deve ser considerado enquanto tal, apenas na medida em que transcende o limitado universo do comer, dormir, reproduzir e se defender, ou seja, em que reconhece sua natureza ´animal´, mas observa também, lado à lado a esta natureza, a capacidade de escolha, a consciência da vontade e a percepção da continuidade temporal.

            Buscar este equilíbrio entre coisas tão distintas, entre energias aparentemente tão contraditórias é, entre outras coisas, o que Krishna chama de yoga. Samatvam yoga ucyate (2.42) – diz-se que o yoga é a equanimidade. E, se o que dizem todos os professores da Gita é verdadeiro, de que Krishna está a falar não apenas para Arjuna mas para toda a humanidade,  é esta a proposta que chega até nós. Somos incitados a buscar a auto-superação, a purificação do eu e a transcendência, mas sem esforços agressivos ou repressores. Ser disciplinado mas sem violência. Dedicar-se a prática, mas abrir mãos dos resultados. Para concluir este breve argumento uma bela lembrança heraclitiana:

´Do movimento dos distintos, a mais bela harmonia´

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