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Entrevista a Prana Yoga Journal

Posted in Uncategorized with tags on fevereiro 11, 2009 by goura

Goura Nataraj explica como o Yoga pode ajudar a desconstruir a visão de um mundo segmentado pelas diferenças.

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(foto de Fabio Riesemberg numa bicicletada de Curitiba – Boca Maldita)


EY: O que o Yoga representa em sua vida?
Liberdade. Superação dos condicionamentos. Olhar para si próprio e para o mundo com olhos equânimes, com um olhar atento e cuidadoso.

EY:Como o Yoga entrou em sua vida?
Aos 16 anos de idade já sabia que tinha alguma coisa errada com o mundo, com os valores da sociedade, com a alienação e a submissão a dogmas e preconceitos herdados. Foi através da música, da revolta e do espírito de insatisfação que encontrei o punk e hardcore e então comecei a questionar a necessidade de tomar consciência sobre as coisas. Parei de comer carne, cultivei meu interesse pelas religiões da Índia e parti em busca de respostas. O Yoga surgiu neste contexto e determinou todas as escolhas que fiz até agora. Neste sentido, prefiro pensar o Yoga com uma coisa só, não dividida em estilos. Ou estamos em um estado de união, ou simplesmente não. O Yoga é uma perspectiva, é olhar o mundo através da percepção da união essencial de tudo o que existe. Se uma pessoa precisa de ásanas e mantras para purificar o corpo e a mente e, assim, poder enxergar as coisas sob o viés da união, este é o melhor Yoga para ela. Se outra pessoa necessita de outro método, deve fazer de tudo para incorporá-lo em sua vida.

EY: Que aspectos da sua vida mudaram quando você começou a praticar Yoga?
Sinto que sou um pouco mais consciente de tudo aquilo que ponho para dentro, inclusive a alimentação. O vegetarianismo trouxe uma percepção bastante distinta da necessidade de incluirmos os animais e a natureza em nosso sistema ético, coisa que a moral ocidental em geral ignorou ou mesmo desprezou.

O contato com verdadeiros monges e mestres também me ensinou muito sobre o valor da entrega, do serviço e da devoção. Depois de algum tempo, você começa a perceber a conexão de tudo isto e o por quê da ênfase dada a não-violência e todos os demais yamas e niyamas.

EY: Quem são os teus mestres e livros que te inspiram?
Sem dúvida alguma a Bhagavad Gita, a canção de Krishna, é o livro que encabeça a lista de inspirações. Seguem autores como Herman Hesse, Schopenhauer, Nietzsche e, no momento, os escritos de Ivan Illich, que alimentam as reflexões que tenho feito, procurando conectar espiritualidade com engajamento político. No final, o Yoga também é uma forma de posicionamento do sujeito perante sua comunidade, constituindo assim uma política, uma maneira de agir no âmbito da coletividade. Meus mestres no Bhakti Yoga e vedanta são Param Gati Swami, Purushatraya Swami e Radhanatha Prabhu, queridos professores que sempre me ensinam algo. Quanto ao Hatha Yoga os ensinamentos e a amizade do Pedro Kupfer são uma força presente.

EY: De que maneira o Yoga permeia todos esses movimentos sociais que você lidera? Explique um pouco sobre esses movimentos.
Na verdade, não lidero coisa alguma. Estou tentando liderar a mim mesmo, me guiar na direção daquilo que acredito como uma virtude – a não obediência cega a rituais, dogmas e preconceitos. Nesta perspectiva, sinto que o Yoga se dá o direito de questionar as coisas, de maneira, às vezes, bastante radical. Estamos engajados na Bicicletada, uma série de manifestações criativas e lúdicas que tem como propósito criticar o esquema absurdo e irracional centrado no modelo industrial dos veículos motorizados individuais. Em outras palavras, falamos em favor do ar puro, das bicicletas, das ruas e cidades vivas e acolhedoras, do contato com a vida e de uma velocidade mais compatível com a fragilidade de nossos corpos. Posicionamos-nos contra um sistema baseado na usura, no consumo cego e desenfreado, na separação social provocada pelas políticas de estímulo ao carro, e em toda a poluição e destruição atreladas a tal indústria. Podemos e devemos pensar em alternativas.

As Bicicletadas são iniciativas livres, de pessoas que estão tomando consciência de que o carro não representa liberdade. As manifestações ocorrem no mundo todo e representam uma poderosa voz de descontentamento. Não precisamos perturbar o fundo dos oceanos, não precisamos de mais petróleo nem desmatar as matas para produzir agro-diesel. O Yoga deve efetivamente fortalecer este coro e dizer, como dizia Shrila Prabhupada, mestre da consciência de Krishna, que o que realmente precisamos é uma vida simples com pensamento elevado.

Prefeito de Curitiba encontra a Bicicletada (Dia Sem Carro - 2007)

Prefeito de Curitiba encontra a Bicicletada (Dia Sem Carro - 2007)

EY: Como a prática do Yoga pode afetar nossas atividades cotidianas?
O Yoga pode mudar muita coisa, mas, antes de tudo, precisamos compreender que o ele só transformará nossa vida na medida em que levantarmos as âncoras que nos prendem a visões falsas e distorcidas da realidade. O primeiro ensinamento do Yoga – Tat Tvam Asi, que significa “tu és isto” – é reconhecer que somos todos essencialmente a mesma coisa. Deste modo, abandonamos todo dogmatismo que segmenta a humanidade em fronteiras, nações, raças e gêneros, afirmações da ignorância primordial sobre nossa natureza. Não somos judeus, nem palestinos, nem hindus, nem islâmicos, nem cristãos, nem europeus, nem latinos ou africanos. Não somos jovens ou idosos, feios ou bonitos, inteligentes ou estúpidos. Somos o atman, a pura consciência que observa, que tem experiências. Tal visão é tão magnânima que não se esquece dos animais e todo o restante da natureza. A vaca não é sagrada simplesmente porque nos dá o leite. Toda a vida é sagrada. Toda a existência é sagrada. É este o maior presente do Yoga. Proporcionar uma visão livre designações falsas e ilusórias. Num mundo onde a intolerância e o ódio são crescentes, o discurso do Yoga deve ser ousado e dirigido a este ponto primordial. Despir o Yoga de sua tensão filosófica é retirar o que ele tem de mais importante a nos oferecer.

EY:Como o Yoga ajuda a conscientizar as pessoas dos problemas ecológicos de nosso planeta?
A crise ecológica é conseqüência de uma desconexão, uma separação do homem do restante da natureza. A partir do momento em que ganho consciência da relação que tenho com os elementos do mundo, minha relação com o planeta irá mudar. Não será necessário um esforço adicional. Afirma-se que, regando a raiz de uma árvore, toda a planta se beneficia e se nutre. Da mesma forma, se solucionarmos o problema principal – nossa separação de nós mesmos – todos os problemas e crises menores serão solucionados. Ou, por acaso, não conseguimos reconhecer que a terra, a água, o fogo e o ar que constituem o meu corpo são os mesmos que estão presentes em cada objeto que percebo? Eu e o universo somos inimigos? Onde quero chegar com tanta acumulação, com tantas propriedades? Não sou um filho da natureza e com a morte não volto inteiramente ao ventre da grande mãe? Desrespeitar a natureza é desrespeitar a si próprio. Mais uma vez: tat tvam asi!

EY: Além do Yoga, você realiza alguma outra prática ou estuda outra filosofia?
Através do Yoga pude cultivar meus questionamentos e inquietações filosóficas e tenho buscado manter isto tudo presente em minha vida. Obtive minha graduação em Filosofia pela UFPR, com um estudo sobre o estoicismo e as filosofias da liberdade do período helênico. Agora, na conclusão do mestrado, estudo sobre o filósofo Arthur Schopenhauer, cujos escritos trazem, a meu ver, muitas reflexões interessantes para todos aqueles que já estão de certa forma familiarizados com a filosofia do Yoga. O próprio filósofo afirmava o valor da filosofia vedanta e de toda mitologia indiana. Além disto, minha filosofia é a bicicleta, filosofia sobre duas rodas.

EY:Como o curso de filosofia afetou sua vida? Qual o ponto de encontro entre a filosofia ocidental e o Yoga?
Filosofar significa ver o mundo no âmbito das possibilidades, ver as semelhanças dos diferentes e as distinções dos similares. A filosofia como amor a sabedoria, oriunda dos gregos, e o Yoga como darshana – perspectiva da realidade – dos habitantes da Índia antiga, se complementam e se enriquecem mutuamente. A verdade não é dual. Não existe uma verdade ocidental e outra indiana. Ela é uma só e devemos aprender a reconhecê-la através do véu de toda multiplicidade, o véu de Maya, que separa e divide o que é essencialmente uma coisa só. Filosofar é ser capaz de traduzir os conceitos em vida. O verdadeiro filósofo é um homem efetivo, que não vivencia os pensamentos apenas teoricamente, mas na efetividade de seu próprio corpo e experiências. O yogi tampouco é um sujeito que vive desconectado da prática. Na verdade, suas ações refletem e nos mostram sua profundidade e sabedoria. A comunidade dos sábios desconhece fronteiras.

Goura Nataraj dá aulas de Yoga no Govardhana YogaShala, em Curitiba, Paraná. É mestrando em Filosofia pela UFPR, onde desenvolve uma pesquisa sobre o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, um dos primeiros intelectuais do ocidente a levarem a sério a sabedoria da Índia.

Para mais informações, acesse:

http://www.artebicicletamobilidade.wordpress.com
(sobre o projeto de bicicletas)
http://www.atmatattva.wordpress.com
(Blog pessoal do Goura)